As fases do aprendizado no desenho

Muita gente confunde desenvolver uma técnica de desenho com aprender a desenhar. Mesmo que uma técnica seja um tipo de desenho, desenvolver uma técnica não significa exatamente que se vá aprender a desenhar.

Neste artigo mostramos como o aprendizado do desenho se divide em fases, o que caracteriza cada uma delas, e como identificar em qual etapa você está para escolher o próximo passo com mais consciência.

O que são as fases do aprendizado no desenho?

As fases do aprendizado no desenho são as camadas pelas quais o aluno passa até alcançar autonomia técnica e criativa: percepção visual, controle motor, domínio dos materiais, esboço com proporção correta e, por fim, o refinamento da técnica escolhida. Cada fase depende da anterior, e pular etapas costuma travar o progresso; identificar onde você está permite escolher exercícios que realmente movem a agulha.

O aprendizado possui muitas camadas

Imagine-se, por exemplo, diante de uma tela em branco para pintar. Mesmo que nunca tenha pintado antes, há a possibilidade de acompanhar tutoriais no YouTube. Fazendo o passo a passo, provavelmente conseguirá obter um resultado razoável. Com o desafio de transferir as informações da referência para a tela, você vai se descobrir em uma das situações a seguir.

A criança atraída pelo desenho

Imaginemos alguém que desenha desde criança de forma amadora. Aprendeu sozinho vendo outros desenharem e já está habituado a traços e formas, então terá certa facilidade para transferir o traço para a tela.

Normalmente começará o traço por um dos lados do cenário, riscando um objeto de cada vez. Se for uma paisagem, começa pela linha do horizonte, depois o contorno das montanhas, das árvores, da casa e do rio. Ou seja, geralmente se pensa em esboçar direto pelos contornos, apagando quando sai torto ou fora de proporção e refazendo. Com prática (principalmente copiando de imagens e fotos), consegue tirar um traço razoável e parte para o preenchimento da pintura.

O jovem interessado em desenho

Num segundo caso, a pessoa além de desenhar desde criança e estar habituada aos traços, tem também conhecimento de perspectiva e desenvolveu métodos de esboçar formas complexas.

Ela terá muito mais facilidade em desenhar o cenário na tela. Com linhas paralelas imaginadas consegue visualizar as formas nas proporções corretas em questão de perspectiva, dando profundidade ao cenário. Começa primeiro com formas básicas, quadrados, círculos, e depois detalha, mantendo as proporções corretas. Sai bem no traço do desenho.

O indivíduo que tem curiosidade no desenho

Já no terceiro caso, alguém que nunca desenhou sentirá muita dificuldade. Primeiro, porque a mão é pesada e não tem muito controle sobre o lápis. Tem também certa dificuldade em enxergar os detalhes que compõem o cenário, podendo passar batido algumas informações, pois não está habituado às formas nem a observar com atenção. Nesse caso, além da dificuldade de perceber a imagem, terá também dificuldade em executar o traço.

Desenhar x desenvolver a técnica

Percebeu como desenhar é diferente de desenvolver a técnica? Desenhar pode ser muito mais do que rabiscar e envolve muitas camadas de aprendizado e habilidades, sendo o desenvolvimento da técnica apenas uma delas. Temos a criança que já se sente atraída ao desenho desde pequena, o jovem ou adulto que se interessou um pouco mais tarde e buscou conhecimentos, e temos o indivíduo que nem sabia que podia fazer um desenho e, de repente, encontrou o interesse e a curiosidade. Uma diferença importante é que o traço se treina em semanas; a percepção visual (base do realismo) leva meses de olhar consciente sobre referências variadas.

Onde a percepção entra em cada fase

Existe uma coluna invisível que sustenta todas as fases acima: a percepção. Quem desenha desde criança já treinou o olhar sem saber. Quem estudou perspectiva refinou a leitura de formas. E quem nunca desenhou precisa começar por aí: desenvolver a percepção antes de esperar que o traço melhore. À medida que o aluno avança, a percepção deixa de ser genérica e passa por três camadas dentro do próprio realismo, das quais tratamos em detalhe em entendendo e desenvolvendo a percepção no desenho realista. Vale a leitura para entender por que dois alunos com os mesmos materiais chegam a resultados tão diferentes.

Quais os próximos passos no aprendizado do desenho

Depois de ter um vislumbre das muitas camadas de aprendizado no desenho, o próximo passo é identificar em qual nível você está e onde quer chegar.

Adquirir novas habilidades

Você é alguém que sempre desenhou de forma amadora, mas tem muito prazer no que faz e gostaria de adquirir novas habilidades e se aprimorar no desenho?

Nesse caso, há uma gama de possibilidades: técnicas de sombreamento, colorido, grafite, carvão, digital, aerógrafo. Também técnicas de criação de personagens, mangá, anatomia humana realista, proporções e perspectiva. Se colocássemos todas as opções aqui, a lista seria enorme.

Basta saber o que já domina e o que deseja aprender, escolher um caminho (uma técnica de sombreamento ou de criação e esboço) e dedicar-se de verdade. Escolher uma linha e ir fundo rende mais do que pular de um tema para outro sem conclusão.

Aprimorar suas técnicas

Se você já desenha há bastante tempo e domina várias técnicas de esboço e preenchimento, e também domina os materiais e ferramentas, provavelmente se sente satisfeito com o que faz e vai continuar desenhando por gosto.

Ainda assim, pode acontecer de se sentir motivado a querer mais, aprimorar o que já faz ou até descobrir novos horizontes e possibilidades, arriscando-se em outras técnicas e universos do desenho. Nesse ponto, o salto costuma vir da parte mais fina: dominar os tons de cinza dos lápis para desenho em toda a escala do 10H ao 10B, ou trabalhar o controle preciso de luz e sombra, que dá volume tridimensional ao trabalho.

Buscar novos conhecimentos

Caso você não se enquadre em nenhum dos casos acima, não se preocupe.

Nem pense que não tem o dom para o desenho. Se gosta de desenho e tem curiosidade e vontade de aprender, saiba que você pode aprender. Aliás, muita gente que hoje desenha bem começou exatamente como você: sem prática nenhuma.

É claro que vai enfrentar algumas dificuldades até adquirir controle, leveza na mão, percepção e noção espacial. Mas a cada passo dado alcançará mais confiança para o passo seguinte.

Não se afobe nem fique ansioso com as muitas possibilidades, tampouco chateado com o que ainda não domina. É só questão de tempo e dedicação. Foque em uma coisa de cada vez e treine muito até se sentir confiante para dar o próximo passo. Uma boa forma de começar é entender bem quais materiais fazem diferença no desenho realista antes de investir em equipamento.

Uma referência para calibrar suas expectativas

O método aqui apresentado é o mesmo que Charles Laveso ensinou em suas aulas: cada fase existe, cada uma leva o tempo que precisa, e pular etapas costuma custar caro no longo prazo. Se você quer ter uma noção clara do que dá para alcançar apenas com lápis e papel (sem software, sem atalho digital), vale conferir a galeria abaixo.


Galeria curada com 545 desenhos realistas feitos a mão. Veja o que é possível fazer só com lápis e papel.

Perguntas Frequentes

Como saber em qual fase do aprendizado eu estou?

Um teste simples é pegar uma referência que você nunca desenhou antes e tentar reproduzi-la em papel. Se você consegue começar direto pelos contornos e tira um esboço próximo do original, provavelmente está na fase do desenho intuitivo (aquele que aprendeu observando ou praticando desde cedo). Se você já começa com formas geométricas básicas para depois detalhar, mantendo proporção e perspectiva, está na fase mais estruturada. Se você olha para a referência e trava sem saber por onde começar, com o traço saindo pesado e as proporções desalinhadas, está na fase inicial, aquela que exige mais treino de percepção e controle motor antes de qualquer técnica avançada. Cada fase tem exercícios próprios que fazem sentido.

É preciso passar por todas as fases em ordem?

Sim, ainda que a duração de cada uma varie muito entre alunos. Ninguém consegue dominar sombreamento sem antes ter controle mínimo do lápis, e ninguém consegue reproduzir com fidelidade uma referência sem ter treinado a percepção. O que muda é o tempo que cada aluno leva em cada etapa. Quem já desenha desde criança pode pular rápido pela fase motora inicial, mas ainda assim precisa passar pelo refinamento da percepção quando entrar no realismo. Quem começa adulto do zero tende a acelerar a fase técnica, porque o pensamento estruturado ajuda, mas costuma travar mais na percepção. Pular etapas sem consolidar cria buracos que aparecem quando o aluno tenta obras mais difíceis.

Quanto tempo leva para aprender a desenhar do zero?

Com prática consciente e regular, a maioria dos alunos alcança resultados satisfatórios em desenho realista entre seis meses e um ano. A palavra-chave é consciente: não basta acumular horas, é preciso repetir exercícios com foco no que ainda não sai bem. Um aluno que treina 30 minutos por dia com atenção evolui mais rápido do que outro que desenha três horas no sábado sem revisar erros. Nos primeiros dois meses o foco está em percepção e controle motor. Do terceiro ao sexto mês entram sombreamento e proporção. A partir do sexto mês o aluno já pode encarar retratos com boa fidelidade e o que continua evoluindo é o refinamento das texturas e a autonomia criativa.

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