A tatuagem realista

Por Luiza Silveira 9 de agosto de 2018

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Tatuagem realista
A tatuagem realista
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Hoje em dia, tem se tornado cada vez menos raro ver pessoas nas ruas com tatuagens.

E nem todas as tatuagens têm um significado, mas muitas sim. Algumas servem para lembrar-nos de permanecermos fiéis a nós mesmos. Outras tatuam em homenagem a entes queridos falecidos; outras para celebrar marcos e experiências pessoais.

Além do propósito, existem diversos estilos de tatuagem. Desde tradicionais (old school), japoneses, tribais, pontilhista, aquarela… E também a tatuagem realista! Tudo depende do artista e do estilo que segue.

Neste artigo, falaremos um pouco sobre a história da tatuagem, suas técnicas, estilos, e mais especificamente, sobre a tatuagem realista.

Acompanhe para saber mais!

A história da tatuagem

As tatuagens se tornaram popular em várias culturas na América, na Ásia, na África, e na Oceania.

Existem provas arqueológicas de que surgiram no Egito, entre 4.000 e 2.000 a.C., também por povos da Groelândia, Sibéria, China, Egito, Filipinas, nos Andes, etc.

Uma dessas evidências foi a Múmia do Similaun, um fóssil humano encontrado nos Alpes, com aproximadamente 61 tatuagens! O curioso desse achado foi que essas tatuagens corresponde a pontos de usados na acupuntura. O que nos leva a perguntar se, para nossos ancestrais, havia um tipo de uso medicinal em fazer desenhos na pele.

As primeiras tatuagens eram feitas com instrumentos mais rústicos, como ossos e tinta vegetal. Algo similar ao método de Stick and Poke.

Romanos e Idade Média

Para os romanos, a prática da tatuagem não era bem vista, a princípio; enquanto em outras sociedades era um símbolo de status.

Todavia, as marcas eram utilizadas para distinguir os escravos, condenados e criminosos.

Ao longo do tempo, os soldados romanos começaram a usá-las, também. Chegou a significar apenas uma forma de identificação dos guerreiros a ideais como coragem e vitórias conquistadas, nas guerras.

Chegou a ser banida, na Idade Média, em toda a Europa, por ser profanação do corpo. Este era considerado templo do Espírito Santo. Nesses tempos, logo, tatuar-se era pecado duramente condenado pela Inquisição Católica.

Povos orientais

Na China, sabe-se que a arte da tatuagem é milenar. Mas, mesmo assim, foi vista como subcultura. Isto é, também como uma maneira de profanar o corpo.

Era usada para marcar criminosos ao serem enviados para o exílio. A partir disso, esse grupo começou a criar sua própria simbologia, com seus próprios desenhos.

No entanto, havia outros povos menores que tinham diferentes tradições. Alguns se tatuavam ao passarem para a vida adulta, por volta dos 13 anos. As mulheres faziam desenhos em suas mãos, braços e um ponto entre as sobrancelhas. Por sua vez, os homens faziam dragões, tigres e outros animais.

No Japão, igualmente, possuem uma tradição de 10.000 a.C. Já foi uma prática de adornar o corpo, de expressar-se, como também sofreu certo estigma. Também chegou a ser associada à máfia Yakuza.

Um povo tradicional da Nova Zelândia, os Maoris, têm a tatuagem como um ponto muito importante de sua cultura. Representavam as narrativas da personalidade de seus indivíduos. Suas descendências e histórias pessoais.

O interessante é que as pessoas começavam a se tatuar na adolescência, e conforme ia realizando coisas, tatuavam-nas. Era uma espécie de honra ter as marcas de seus sucessos.

Os marinheiros

Quando o capitão James Cook visitou os povos Maori, adquiriu o costume de tatuar-se com eles, como uma lembrança de suas viagens. A tatuagem acabou virando um fenômeno entre os marinheiros ingleses e americanos.

No fim do século XIX, a maioria dos marinheiros tinham uma tattoo em seus corpos. Virou indispensável, e um símbolo forte dessa classe de pessoas.

Os desenhos representavam as viagens e até superstições.

Mas acabou por fazer sucesso com a nobreza europeia, também, após a descoberta de James Cook.

Também devemos o nome ao navegante inglês. O termo vem do francês tatouage, e do inglês tattoo.

James Cook relatava em seu diário as práticas constantes de fazer desenhos na pele dos povos Maori. Assim que encontraram escrito em seu diário o termo tattow, que vem de tatau. Isso é algo como o som feito durante o processo de tatuagem, pois usavam ossos finos e um martelo para introduzir a tinta na pele.

No Brasil

O primeiro tatuador do Brasil é o dinamarquês Knud Harald Lucky Gegersen, conhecido como Lucky Tattoo. Ele chegou só em 1959.

Seu estúdio se localizava em Santos, e a partir dessa época ele começou um legado da tatuagem em nosso país.

Faleceu em 1983, aos 55 anos. Por causa dele, o Dia Nacional do Tatuador é 20 de junho, o dia de sua chegada aqui.

Tatuagem realista

Lucky Gegerson | Follow the colours

Os dias atuais

Com movimentos como o hippie e outros de contracultura, a tatuagem foi ganhando espaço na sociedade, nos anos 60 e 70.

Programas de televisão como Ink Master, Miami Ink e LA Ink popularizaram a tatuagem, mundialmente. Auxiliaram na difusão de técnicas, máquinas, tintas, entre outras particularidades.

Outra coisa que tem feito a tatuagem uma prática mais aceitável são as normas de vigilância e regulamentação.

Por isso, a tatuagem tem se tornado algo cada vez mais comum entre jovens e adultos. Tem perdido o estigma que já teve, ao longo de sua história.

Técnicas de tatuagem

Como mencionado acima, as técnicas de tatuagem eram mais rudimentares.

Consistiam em perfurar a pele com instrumentos pontiagudos, e ponto por ponto, fazer todo o desenho.

No Japão, era usado o bambu e tinta natural. No sul do Pacífico, esticava-se o corpo da pessoa a ser tatuada e usava-se um instrumento para bater, juntamente com uma agulha de osso ou pedra para fixar o desenho. A tinta costumava ser de carvão com noz-moscada, por cima da perfuração.

A primeira máquina de tatuagem foi inventada no século XIX, a partir da modificação de uma invenção de Thomas Edison: a caneta elétrica. Esta, inicialmente, servia para copiar documentos, perfurando o papel e fixando a tinta.

Baseada nessa invenção, Samuel O’Really, em 1821, patenteou a máquina rotativa. A velocidade era guiada por um pedal que o tatuador operava.

Mas não demorou para surgirem máquinas de bobinas hidráulicas, que dão mais precisão para os traçados e os movimentos.

Já nos anos 2000, o tatuador Carson Hill criou a máquina pneumática, movida a gás. Ela é mais simples de ser esterilizada por aparelhos de desinfecção. O que diminui os riscos de se fazer uma tattoo.

Em 2009, a empresa Neuma criou a máquina híbrida pneumática-híbrida.

Aperfeiçoando a técnica

Com certeza, com o passar de todo esse tempo, de técnicas e materiais distintos para fazer tatuagens, os estilos foram mudando.

Por exemplo, a tatuagem realista só foi possível após o surgimento das máquinas e da evolução dos pigmentos.

Antes, as tintas eram naturais. Vinham da extração de raízes e plantas. Atualmente, são feitas de metais e elementos químicos.

Estilos de tatuagem

Junto com toda essa progressão, vieram diversos estilos de tatuagens nos mais diferentes estúdios do mundo todo.

Existem estilos como o new school, que nada mais é uma releitura ao old school, ou um estilo mais tradicional. Mas também geométrico, lettering, aquarela, pontilhismo, tribal, realista… Uma infinidade de estilos!

 

A tatuagem realista

Estilo chicano

Uma das origens da tatuagem realista se encontra no estilo chicano. Se baseia em desenhos que retratam a vida da rua de mexicanos e descendentes que vivem nos Estados Unidos. Esse movimento foi criado nos anos 60 para que essas pessoas pudessem lutar contra o preconceito e contra a desigualdade que enfrentavam nos EUA.

Nessa época, os mexicanos que viviam no norte dos EUA criaram La Mafia Mexicana, um momento em que a cultura gangster foi consolidada.

Portanto, esse estilo tem o objetivo de representar suas histórias. Alguns desenhos comuns são familiares, religiosos, como também grandes líderes da revolução mexicana.

Tem como característica, muitas vezes um desenho mais realista, preto e cinza, com destaque às sombras. As fontes têm influência das ruas, de pichações e do hip hop

O pioneiro do estilo preto e cinza, marcado por linhas finas, nuances de sombras e imagens realistas é Freddy Negrete. Ele desenvolveu suas habilidades na tatuagem após ser preso envolvido em brigas de gangue, na Zona Este de Los Angeles, nos anos 70. Seu trabalho ganhou notoriedade após cumprir sua pena e fazer nome na cidade. Hoje, representa o estilo chicano de tatuagens, chegando a ter sua arte exposta no Museu Natural de História, em 2017.

Tatuagem realista

Freddy Negrete

O que é a tatuagem realista

A tatuagem de estilo realista, assim como o desenho realista, busca retratar da forma mais fiel a referência que é levada ao estúdio.

Normalmente são retratos, como rostos de figuras e de celebridades. Também paisagens, estátuas, objetos ou animais.

Por meio de agulhas, em cores ou em preto e branco, são imagens muito bem construídas, de alta qualidade visual, que se parecem ao máximo com a realidade.

Dependendo da magnitude, pode levar até 10 sessões para a tattoo ser concluída, devido aos detalhes minuciosos.

Utiliza técnicas de sombreamento, estilo de traçado, profundidade proporções da anatomia, entre outros.

Portanto, a tatuagem realista é um estilo bastante elaborado, no qual é preciso ter cuidado de ambos tatuador e cliente: respectivamente, em dominar as técnicas; em saber escolher um excelente profissional para marcar a sua pele, para sempre.

Por certo, não são iniciantes na arte do realismo que fazem esse tipo de tatuagem. É necessário muita atenção para os pequenos detalhes que são quase imperceptíveis ao olhar.

A tatuagem realista só foi possível com o aperfeiçoamento das máquinas de tatuagem e da criação de diferentes agulhas para cada efeito.

Como o desenho influencia na tatuagem realista

Sabemos que na tatuagem realista, não há espaço para erros. Principalmente quando são rostos de pessoas ou animais, qualquer mínimo erro pode fazer a tatuagem fugir do seu propósito.

Partes como olhos, sorriso, expressões faciais… São itens que merecem o máximo de atenção possível, e influenciam bastante para o aspecto realista da tatuagem.

Muito já discutimos aqui no blog sobre o desenho realista, sobre suas técnicas, materiais, etc. Mas como é possível aproveitar o desenho na tatuagem realista? E mais, como fazer um curso de desenho realista pode ser útil para a tatuagem?

Veja um pouco do que o professor de desenho realista, Charles Laveso, já nos contou sobre isso aqui:

1. O mercado cresce, e quem não busca conhecimento fica pra trás

Em todas as áreas existem os que fazem e os que se destacam.

Hoje vivemos bombardeados de informações. As possibilidades de aprendizado se multiplicam. E a cada hora surge um determinado profissional apresentando seu trabalho, seja pela internet ou até mesmo em seu bairro…

Quando você tem a ideia de fazer algo, de repente já aparece alguém fazendo.

Hoje, no desenho, eu colho frutos que plantei há mais de 10 anos atrás. E muitos que hoje eu vejo se destacando com excelência em sua arte são pessoas que não se acomodam, mas estão sempre buscando informações e conhecimento, estão sempre aperfeiçoando aquilo que já fazem com perfeição.

Portanto, se você pensa em se destacar na arte de tatuar, entenda: um curso de desenho é um dos melhores investimentos para sua carreira!

2. Quando você muda sua forma de ver, todo seu trabalho se destaca

Após algumas aulas de desenhos, todos os alunos tatuadores que eu tinha, chegavam em mim e diziam que estavam impressionados de como houve uma evolução gigantesca nas tatuagens realizadas por eles.

Eu me perguntava: Mas como? Eu nem ensinei nada sobre tatuagens!

Na verdade eu realmente não estava ensinando a tatuar, mas nosso método de ensino do desenho estava mudando a forma como eles viam as próprias tatuagens que faziam.

Era como se eu estivesse implantando uma lente nos olhos de cada um, para que enxergassem com um olhar artístico.

E era exatamente assim que acontecia. Chegavam no Curso olhando e vendo o que todos viam. Mas após algumas aulas, o olhar começava a ver o que nem todos viam!

Formas, curvas, texturas, profundidade, volumes, expressões, estética… Enfim!

A arte de desenhar começava a criar uma percepção mais profunda do próprio trabalho que realizavam. Erros que antes passavam despercebidos começaram a ser notados.

Assim, o resultado era que em cada Convenção de tatuagem eu via meus alunos sendo premiados.

Responda a você mesmo:

  • O seu olhar, é um olhar profissional ou artístico?
  • Seu trabalho é satisfatório ou é uma obra de arte?

3. Crie seus próprios desenhos

Um dos benefícios mais importantes que o ato de desenhar pode lhe proporcionar, é, sem dúvida, alguma renovação de seu repertório mental. O que pode abrir os caminhos da sua criatividade e lhe permitir imaginar além do comum.

Quando desenhamos, estamos estimulando o nosso cérebro a pensar.Desenhar nos coloca em contato com a imaginação. E a prática acrescenta conhecimentos técnicos para que a criatividade ganhe tons e formas.

Em 2015 em Madrid, Espanha, lancei meu primeiro livro de referências de desenhos realistas para tatuadores. O lançamento deste livro me permitiu ver que existem muitos artistas que tatuam, mas desconhecem princípios básicos de luz e sombra, porque não desenham.

Ao ter contato com técnicas de desenhos realistas, além de estar estimulando sua percepção para dar “vida” às suas tatuagens, o aluno também estará preparando sua técnica e imaginação para criar suas próprias referências.

Quanto melhor for o seu desenho, melhor será a tatuagem que faz!

Alguns tatuadores realistas brasileiros

Fonte: Find Tattoo.

 

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