Restrição ou liberdade: escolhas em nossa aprendizagem

Por Aniela Darienzo 12 de outubro de 2017

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Restrição ou liberdade: escolhas em nossa aprendizagem
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A aprendizagem durante muito tempo se manteve restrita aos espaços escolares e ateliês, desde o ensino fundamental ao universitário os ambientes estiveram relacionados a valores como ordem, disciplina e vigilância. Novos espaços porém, têm surgido, onde o distanciamento da vida exterior não tem mais vez. A liberdade e o uso de novas tecnologias são a base.

Cursos virtuais têm se mostrado como uma opção que pode ser integrada à rotina particular. Estuda-se a qualquer momento e em qualquer lugar. Interrompemos e retomamos a nosso critério. Qualquer que seja nosso interesse, sempre será possível aprender novos conteúdos ou aprofundar conhecimentos sem passar pelas restrições que o ensino formal exige.

O ambiente escolar e ateliês são espaços separados por um muro, um local fechado dentro de si mesmo e alheio à vida de cada um. Seus muros proporcionam uma sensação de distanciamento, clausura e solidez.

Nos espaços de aprendizagem formal não é permitido circular livremente, há um controle de quem está presente ou ausente, cada integrante deve ser facilmente localizado e não deve haver aglomerações.

Cada indivíduo deve permanecer restrito ao espaço que lhe é permitido, vigiado em suas atividades, qualidade e rapidez. O tempo e o espaço são recortados, há uma sucessão de metas ou atividades a serem cumpridas com horários e intervalos inflexíveis. O treino segue padrões estabelecidos e tem como objetivo medir qualitativamente o aluno.

Ao professor cabe o olhar classificador que estipula hierarquias, recompensa e pune. A competição é incentivada, pois cada um deve se comparar permanentemente aos outros e medir seu sucesso ou fracasso.

Gilles Deleuze, filósofo francês, afirmava que a escola seria semelhante a uma prisão e a pedagoga Marie Pape-Carpentier comparou o ensino a um mecanismo onde quem ensina é o agente motor e os alunos, as engrenagens.

Michel Foucault, filósofo e professor de história acreditava que hospitais, asilos, prisões e escolas seguiam o mesmo modelo de vigilância e disciplina. Foucault estudou as instituições disciplinares que apresentavam o modelo panóptico que está longe de ter sido descartado em nossa sociedade atual.

O panoptismo foi um conceito de prisão implantado a partir dos séculos XVII e XVIII onde as celas de um presídio ficavam dispostas ao redor de uma grande torre, os presos eram vigiados permanentemente por um guarda, mas não podiam vê-lo. O panoptismo permanece em nossa sociedade, onde todos são vigiados, punidos, recompensados e sujeitos a seguir uma série de normas.

Pode parecer extremo relacionar escolas ou nossa vida a tal modelo, mas quando nos lembramos das câmeras de segurança em todos os corredores podemos perceber que ser visto o tempo todo sem ver é algo que permanece. Há câmeras nos prédios, ruas, lojas, sempre há alguém com um celular realizando uma filmagem. O modelo panóptico assumiu novas proporções.

Nossa sociedade com as formas tradicionais de ensino divide e classifica cada pessoa criando uma dinâmica que induz e produz efeitos, não há o desejo de ressaltar as capacidades de um indivíduo, mas sim de exercer formas de poder e controle, isso é, a manutenção do modelo panóptico. Seja através da massificação ou de um atendimento individual a aprendizagem prossegue de forma que não haja a valorização da singularidade.

O ser humano é singular, mas convive no plural, ou seja, no relacionamento com outros. A pluralidade permite que cada um possa através de suas ações se revelar em atos e palavras. A tecnologia não é libertadora nem uma forma de controle por si só, seu uso definirá sua posição que tanto poderá ampliar modos panópticos de relação, quanto conceder maior mobilidade e liberdade. Não há neutralidade, devemos estar conscientes que somos produtores e produtos da sociedade.

A educação deve proporcionar o desenvolvimento da individualidade, para que cada um possa contribuir para o mundo desenvolvendo seus potenciais. O ensino deve promover sempre a liberdade. Diante dessa perspectiva o ensino a distância abre a possibilidade de algo único, que é moldar a aprendizagem às necessidades individuais.
O tempo quem determina é o aluno, logo a necessidade de constante vigilância perde o sentido. O crescimento é fruto de seu próprio trabalho, sem comparações desnecessárias. Não há hierarquização de acordo com rendimentos, mas o estímulo permanente de ampliar habilidades.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FRAGO, Antonio Viñao & Augústin Escolano. Currículo, Espaço e Subjetividade – Do Espaço Escolar e da Escola como Lugar: Propostas e Questões. Tradução Alfredo Veiga-Neto. Rio de Janeiro, Editora DP&A 1998

FOUCAULT, Michel. VIGIAR E PUNIR. Petrópolis Editora Vozes 2003

BRIGHENTE, Miriam Furlan. INSTITUIÇÕES ESCOLARES. MESQUIDA, Peri – PUCPR. Disponível em: http://educere.bruc.com.br/CD2011/pdf/4342_2638.pdf

POSSOLLI, Gabriela Eyng. PANOPTISMO COMO DISPOSITIVO DE CONTROLE SOCIAL E EXERCÍCIO DE PODER (PUCPR). Disponível em:
http://www.pucpr.br/eventos/educere/educere2004/anaisEvento/Documentos/CI/TC-CI0095.pdf

GUSTAVO FERREIRA DA SILVA, André. Educação e liberdade: o conceito de liberdade na pedagogia brasileira da década de oitenta. Disponível em:
http://repositorio.ufpe.br/handle/123456789/4078

ALMEIDA, Vanessa Sievers de. Educação e liberdade em Hannah Arendt. Universidade de São Paulo. Disponível em:
http://www.uel.br/grupo-estudo/geeep/pages/arquivos/educacao%20e%20liberdade.pdf

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