A influência do Desenho na arte de tatuar

Por Charles Laveso 3 de agosto de 2017

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*Imagem – Tuzinho Tattoo, este artista foi um entre tantos outros que participou de um dos primeiros seminários que realizei em 2013, vem ganhando reconhecimento mundial pela qualidade apresentada em suas tatuagens.

*Este artigo não tem a finalidade de abordar a história da tatuagem, mas associar a evolução dessa arte com a prática do desenho.

Em 2003, comecei a ter contato com os primeiros tatuadores que me procuravam para aprender as técnicas do Desenho Realista e a aplicarem em suas tatuagens.

Eu quero neste artigo compartilhar um pouco dessa experiência, que foi de grande aprendizado. Tanto para mim, como para diversos tatuadores que elevaram sua percepção por meio de técnicas compartilhadas em nosso Curso. Mas, antes, quero falar um pouco dessa arte em ascensão em todo o mundo: a Tatuagem.

Atualmente, na maior parte do mundo, uma das expressões humanas que mais tem se tornado reconhecida como “Arte” por pessoas de diversas culturas, sem dúvida é a pigmentação da pele.

Mas nem sempre foi assim, nas décadas de 60 e 70 aqui no Brasil quem trazia alguma espécie de desenho no corpo era alvo de preconceito, e muitas vezes era visto como uma forma de expressão rebelde, contraditória e até mesmo marginal.

As ferramentas que antes eram usadas para tatuar, além de precárias e improvisadas, apresentavam resultados bastante rústicos, muitas vezes com traços grossos e com detalhes que se perdiam com o tempo pela falta de precisão dos materiais usados. As tintas e agulhas eram normalmente produzidas de forma caseira, assim o artista/tatuador ficava limitado à falta de possibilidades oferecidas pelo próprio material que tinha em mãos.

Ou seja, por mais talentoso que fosse o artista, ele sempre esbarrava nas limitações de suas ferramentas de trabalho.

A verdade é que com o tempo, alguns artistas visionários começaram a perceber que essa arte revelava muito mais do que símbolos ou traços bizarros gravados na pele. O gesto de oferecer o próprio corpo como tela para uma arte demonstrava liberdade, revelava autoestima, personalidade, era uma forma de afirmar convicções religiosas e políticas.

Estes mesmos artistas, começaram a desenvolver uma visão empreendedora deste universo, possibilitando a criação de materiais adequados, legalizados, e que oferecesse ao artista a oportunidade de desenvolver um trabalho com formas estéticas mais belas, mais atraentes e assim pudesse impactar a sociedade dos “politicamente corretos” para que compreendessem a tatuagem como uma arte que antes não era reconhecida como tal.
A verdade é que deu certo!
A arte marginalizada começou a ser querida!
Jovens pintores e desenhistas fadados ao fracasso em uma sociedade pobre em reconhecer valores artísticos, começaram a encontrar na arte de tatuar uma oportunidade de se estabelecerem como artistas reconhecidos, por meio da evolução dos equipamentos de tatuar e da qualidade dos pigmentos para pele. Houve então uma explosão de talentos.
A tatuagem começou a adornar corpos de artistas, celebridades, modelos, atletas…
A arte se propagou, quebrou paradigmas, rompeu barreiras, transformou preconceitos em admiração e vem alcançando reconhecimento exponencial em todo o mundo.

Mas com o surgimento crescente de tantos artistas, vem também os que pegam carona nessa “moda”… Porém, com outra motivação: a idéia de ganhar dinheiro com essa parada de tatuar é sedutora.

Todavia, querer não é poder! E é aí que se destaca a diferença entre o artista que busca evolução na arte do desenho e o oportunista que corrompe essa mesma arte em prostituição barata e sem compromisso.

Quando tatuadores começaram a procurar o nosso Curso de Desenhos Realistas, sinceramente, eu me perguntava se minha técnica ajudaria de alguma forma o profissional da tatuagem a crescer em sua arte. A verdade é que todos os alunos atuantes nessa área, após alguns meses de aula, confessavam ter percebido uma diferença gritante em seus trabalhos.

Ao compreender o conceito de sombreamento no papel, a percepção do aluno passava para outro nível, era como se instalasse um novo software em seu olhar.
O que antes o tatuador não notava em seus próprios trabalhos, passava a ser percebido, pois ao trabalhar a observação de detalhes mínimos, típicos da técnica do realismo, o aluno estava desenvolvendo diversos fatores na busca pela excelência de sua arte; sua autocrítica, paciência, memória, foco, disciplina, movimento da mão, olhar comparativo, enfim… Tudo isso, associado a sua experiência na tatuagem e tendo ao seu alcance a eficácia de materiais com tecnologia de ponta, os resultados têm sido fantásticos!

Hoje, sem dúvida, esta arte não é mais um gesto marginal, pelo contrário, vem crescendo e ganhando o respeito de curadores na arte e artistas plásticos inseridos em diversos contextos vem se rendendo às incontáveis possibilidades artísticas e profissionais que o universo da tatuagem tem proporcionado.

Nos últimos anos venho ministrando Seminários de Desenhos Realistas para tatuadores por diversas cidades do Brasil e até mesmo em outros países.

E posso afirmar com toda convicção que a tatuagem está totalmente associada à Arte de Desenhar. O desenho é o caminho para o aperfeiçoamento de sua percepção e técnica para tatuar.

 

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