O que antes para mim era bom, hoje não parece mais

Recentemente, estava analisando alguns desenhos meus, e comecei a notar algumas diferenças em relação às técnicas. Notei uma evolução importante, quando comparei com trabalhos mais antigos.

Quando isso ocorre, é algo positivo, pois é sinal de melhora na percepção e na autocrítica. Mas ao mesmo tempo é curioso pensar que, antes, para mim, aquele trabalho era bom o suficiente. Mesmo tendo a consciência da necessidade de evoluir.

O que é evolução na percepção artística?

Evolução na percepção artística é o processo contínuo de refinamento da capacidade de observar detalhes, reconhecer proporções e entender como a luz e a sombra funcionam na realidade. À medida que você treina sua percepção, desenhos que antes pareciam “bons o suficiente” começam a revelar imperfeições que você não via antes. Isso não é falha; é sinal de crescimento genuíno e aumento de consciência visual.

Então, me pergunto: o que acontece em nossa mente que naquele momento não vemos as coisas da mesma forma que percebemos hoje?

Hemisfério esquerdo × direito

Nossos olhos tendem a ver o que queremos ou o que esperamos ver de uma forma inconsciente. Até involuntária.

Vamos arquivando imagens e cenas em nossa mente, criando um banco de imagens. No momento que estamos desenhando, o lado esquerdo do cérebro toma a frente. Ele é o lado exato. Nos mostra o óbvio, tudo o que já reservou, até então. Assim, reproduzimos o que tem em mente e não o que tem à frente de nossos olhos, como realmente deve ser.

A transição de utilizar o lado mais exato do cérebro para passar ao criativo, o hemisfério direito, é um processo que exige certo treinamento. Mas é possível.

Nesse momento você passará a olhar a referência com mais realidade, reproduzindo com mais riqueza de detalhes.

Transição de hemisférios

Todavia, o que nos faz perceber os erros é que essa transição não deve ser uma via de mão única. Quando terminamos de executar o desenho, ou uma etapa dele, é necessário voltar a estimular o lado esquerdo do cérebro novamente. Podemos sair daquela sensação de inércia e bem-estar proporcionado pelo lado direito e passar a analisar os erros. Anotar mentalmente as áreas que precisam ser corrigidas, sendo crítico e analítico.

Falando assim parece algo que podemos ligar ou desligar, como um interruptor. Mas, na prática, é um processo rápido e natural. Ao mesmo tempo que está focado, é preciso se esvair e perceber o todo.

É importante fazer esse mecanismo em cada trabalho, para assim estimular a sua percepção do que é real. Tenha sempre a referência ao lado.

Comparação e análise de desenhos

Depois de algum tempo, quando analisar os desenhos que fez no início e compará-los com os atuais, irá ter um preparo maior e perceber que o que via antes era algo mais generalizado. Era fruto da memória, e não exatamente do que se via através da sensibilidade da percepção.

Porém, não quer dizer que os desenhos de antes não tenham seu valor. Naquele momento, você também estava se expressando, porém com menos detalhes da realidade.

Para que todo esse processo ocorra, em resumo, é necessário prática e por consequência o estímulo da percepção. Mas, acrescento também o foco e a dedicação. Conforme faz desenhos e procura entender suas dificuldades, a sua percepção à essência vai se aprimorando.

Prática e estudo constante

Não é como um passe de mágica, de um momento ao outro. Por isso, é preciso estar constantemente estudando. Não é a reprodução de um desenho após o outro, mas é saber ouvir e ver. Procurar entender, estudar e tentar enfrentar as dificuldades, não colocando-as como obstáculos, mas sim como aprendizado.

Quando estamos desenhando sentimos prazer e sabemos que há erros e que é preciso melhorar, mas o que foi feito naquele momento entende-se que é um passo à frente do que fazíamos ontem.

Essa conquista é importante para nós. Mesmo que aos olhos dos mais experientes apareçam mais erros que acertos, e às vezes recebemos críticas que não queríamos ouvir, podem ser necessárias como uma alavanca que nos impulsiona a ver o que antes era oculto.

Até mesmo as nossas referências como artistas podem ir mudando com o passar do tempo. Aquele artista que lhe serviu de inspiração no início, pode não ser o mesmo que lhe inspira hoje. E mesmo assim foi primordial para seu desenvolvimento.

Para termos sucesso é preciso dedicação. No desenho, para chegar a níveis elevados, é necessário prática para adquirir experiência e ir galgando à evolução. Com isso, cada etapa que passamos é um acréscimo ao nosso conhecimento.

Perguntas Frequentes

Por que meus desenhos antigos agora parecem ruins se eu gostava deles antes?

Seus desenhos não pioraram; sua capacidade de percepção melhorou. À medida que você treina seu olhar, passa a ver nuances que não notava antes: proporções ligeiramente incorretas, gradações de sombra menos precisas, falta de profundidade. Isso é um sinal claro de progresso. Seus desenhos antigos ainda representam o momento em que você estava naquele nível; agora você sabe mais. Isso é evolução, não fracasso.

Como sei se realmente estou evoluindo ou apenas sendo mais crítico?

Você está evoluindo se: (1) consegue identificar problemas específicos (ex: proporção do rosto, direção da luz), (2) seus desenhos novos têm mais detalhes e nuances que os antigos, (3) outras pessoas comentam sobre sua melhora. Você está sendo apenas crítico se culpa seus desenhos por “não serem bons” sem saber explicar o porquê. A verdadeira evolução é acompanhada de clareza: você sabe o que melhorou e por quê.

Qual é o papel da prática constante nessa evolução?

A prática constante é indispensável. Cada desenho que você faz treina seus hemisférios cerebrais: o esquerdo (analítico) que percebe detalhes e o direito (criativo) que executa. Sem repetição, esses “músculos mentais” não se desenvolvem. Você pode estudar teoria para sempre, mas sem praticar 3-4 horas por semana consistentemente, sua percepção não vai evoluir. A boa notícia: essa evolução é previsível e linearmente correlacionada com as horas de prática.

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