A paixão que consome o artista

Por Aniela Darienzo 8 de agosto de 2017

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A paixão que consome o artista
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As biografias através do cinema e dos livros mostram a visão do artista movido por uma paixão arrebatadora que o faz perder a noção do tempo, passar noites em claro, dominado por uma força que até mesmo se sobrepõe às suas necessidades básicas.

Existe a intenção de parar, mas uma energia intensa o mantém focado, preso em seu processo criativo. Será que essa força que impulsiona a criação artística é sempre benéfica ou poderá ser destrutiva? Nesse artigo irei comentar sobre a visão da psicologia analítica e da psicanálise diante da pulsão artística.

A arte possui um lado objetivo ligado à forma como o artista se comporta diante do mundo que se refletirá nas preferências técnicas e compositivas em uma obra, e um lado impessoal, quando o indivíduo mergulha dentro de si mesmo, encontrando conteúdos que não estão relacionados à sua vida em particular, mas a toda a humanidade.

A criação pode ter um propósito determinado pela mente do artista que busca através de efeitos, técnica e estilo alcançar o que deseja ou pode surgir como um objeto autônomo que se impõe como se não fosse possível fazer alterações de acordo com a sua própria vontade.

A explicação para esse tipo de ocorrência está relacionada ao tipo de personalidade que cada pessoa possui, ligada a fatores de introversão e extroversão. Enquanto pessoas introvertidas precisam afirmar a sua intenção e domínio sobre o objeto, os extrovertidos se sentem subordinados a ele.

A atitude do artista, no entanto, poderá alternar sendo hora introvertida, hora extrovertida, e desse modo a forma de perceber o objeto artístico será diferente, apesar de existir uma tendência dominante.

O ímpeto criativo quando se apodera do indivíduo assemelha-se a uma essência dotada de vida, a psicologia analítica chama essa essência de Complexo Autônomo que atua como uma parte destacada da personalidade. Um complexo autônomo engloba os desenvolvimentos psíquicos que de início eram inconscientes e se tornam conscientes, não podendo ser controlados, inibidos ou reproduzidos a nossa vontade. Esse caráter independente se assemelha aos estados patológicos e distúrbios, mas no caso da arte não é um estado de adoecimento.

De acordo com Freud as obras de arte estão apenas relacionadas à vida pessoal do artista, seja por situações que ocorreram em sua vida familiar ou nos distúrbios que possa apresentar. No processo de criação existiriam conteúdos reprimidos e a arte seria a expressão desses conflitos internos. Essa percepção ligada à psicanálise fez com que os historiadores de arte passassem a dar muita importância às vivências pessoais do artista, condicionando causa e efeito.

Jung critica essa visão, pois seria transformar a arte em uma expressão dos estados de adoecimento. Afirma que existe a relação entre homem e obra de arte, mas um não explicaria o outro, pois no momento criador existem elementos irracionais que não são clarificados pela história de vida ou qualquer outro fator limitante.

A arte jamais será a expressão de patologias ou sintomas de um distúrbio, ela não intensifica o que é nocivo, pois permite justamente uma reorganização criativa dos nossos problemas. Ao mergulharmos por inteiro no processo criativo a vida passa a ter um sentido maior e mais profundo porque somos capazes de oferecer algo realmente significativo para o mundo.

 

BIBLIOGRAFIA

JUNG, C. G. Arquétipos e o inconsciente coletivo. 2ª edição. Petrópolis, 2002. Editora Vozes.
JUNG, C. G. O Espírito na Arte e na Ciência. Petrópolis, 1991. Editora Vozes.
JUNG, C. G. O Homem e seus símbolos. 4ª edição. Tradução de Maria Lúcia Pinho. Rio de Janeiro, 1967. Editora Nova Fronteira.

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