Mundos  –  O prisma de cada um

Por Samuel Torres 13 de junho de 2017

COMPARTILHE:

O mundo é um conceito individual, formado em cada pessoa por suas memórias, por suas histórias, consciência, esperanças, frustrações, desejos, medos, enfim, toda infinidade de coisas que compõem a mente e a vida do indivíduo, formando um prisma, uma interpretação da realidade, que é uma forma de ver a si mesmo, de enxergar a própria existência de forma consciente até os meandros do inconsciente, cada um com seu prisma, seu mundo.

 

Pouco do mundo interior de cada um é transmitido a outros, a maior parte fica oculta em pensamentos, traumas, frustrações, desejos, ambições, etc. Mas, apesar da disparidade entre os mundos, de muitas maneiras compartilhamos todos da mesma natureza, afinal somos uma espécie social, que evoluiu, aprendeu, gravou padrões, moldou o corpo e a mente para superar obstáculos, além do mais, com a mesma biologia e química. Então, o que se passa com o próximo, podemos sentir em nós mesmos através da empatia, pois conseguimos nos imaginar na pele de outra pessoa em circunstâncias diversas.

 

Ao observar a sociedade atual é notável que a cultura foi moldada com base no capitalismo e produção, o que dá papéis a cada indivíduo para que se produza sempre mais, e cada pessoa faz uma determinada tarefa, limitando-se àquilo, de forma que a vida se torna um conjunto de responsabilidades e afazeres em uma rotina repetitiva e desmotivante.

 

Desmotivante porque inibe a liberdade e a criatividade, que são partes importantes da natureza humana, pois ao passo que o ser humano cria ou transforma algo, se sente realizado, seu espírito se desprende, eleva-se o ânimo.

 

Em contrapartida, ao submeter-se a uma rotina de padrões sugestivos, vai se tornando menos humano e mais máquina, onde o desânimo toma conta, ficando cada vez mais sem inspiração ou vontades, à mercê das marés do cotidiano.  

 

Essa situação agrava-se mais ainda pela liquidez do mundo atual, onde tudo é diluído pela cultura das massas, por coisas banais que viralizam, por padrões que se erguem e aniquilam a individualidade, trazendo consigo uma busca desenfreada por aceitação, onde o indivíduo vive em uma constante formatação, tentando se adequar ao meio inserido.

 

Dessa forma se dilui o ser, suas particularidades, valores, gostos e opiniões se perdem.

 

Toda essa realidade pode ser ponderada para que a formatação vazia não tome conta, formando um ser apresentável e atraente por fora, mas oco por dentro.

 

Senão o vazio se alastra, aniquilando o ser e moldando uma casca moderna, sofisticada, em um ciclo constante que se auto alimenta, em uma demanda incessante por aquilo que se busca, seja a perfeição estética, formações acadêmicas, conquistas, resultados em geral, que são coisas válidas, claro, desde que trabalhem em função do indivíduo, não o contrário, não ser escravo de suas próprias buscas, em um ciclo frenético de dependência, onde o não ser depende de não ter, pois o ser “é”, não precisa de nada mais pra “ser”.

 

Não precisa ser isso ou aquilo para ser “alguém”, pois o ser se limita a si mesmo, o resto são acessórios que compõe o ser, que agregam de acordo com suas vontades, aptidões e coerências, balizados pela consciência.

 

Uma boa forma de se desprender desse ciclo é fazer uma busca dentro de si mesmo, vasculhando suas ações, auto observando-se, submetendo tudo o que encontrar às perguntas: Isso é realmente importante? Tem valor? Traz alguma forma de crescimento? Eleva o estado de espírito? Por que distrações vazias trazem prazer imediato, mas geram um comodismo fatal, cavando um buraco para si mesmo, do qual será difícil sair, pois a inércia toma conta e junto dela vem sentimentos de frustração e desânimo trazendo mais peso que dificulta a iniciativa de mobilidade.

 

Todo esse auto exame deve ser acompanhado de ações,  trocar hábitos,  produzir, criar, desenvolver-se.

 

Atividades como o desenho e a pintura são excelentes, pois trazem consigo o ato de criar ou transformar, e fazem a mente migrar para um estado de espírito calmo e tranquilo, livrando-se de todos os pesos mentais que limitam a criatividade e aumentam a ansiedade, fazendo-o mergulhar em um estado atemporal, sendo então uma forma de terapia, de aliviar o estresse, de acalmar a alma.

 

Mas mesmo assim, não são atividades que se aprende com facilidade, é claro que isso varia de pessoa para outra, mas geralmente, se dá com bastante treino e dedicação, o que gera, através do esforço contínuo, resultados satisfatórios, pois pode-se usar a arte como expressão de suas próprias emoções, ou para transmitir ou reproduzir alguma mensagem, as possibilidades são inúmeras.

 

Com o tempo e a prática, a atividade em si deixa de ser um conjunto de regras, movimentos e conhecimentos para algo que flui naturalmente, inconscientemente, trazendo o estado de espírito citado acima.

 

Em suma, o verdadeiro sentido de “ser” é estar reconciliado consigo mesmo, com suas limitações e frustrações, mas, ao mesmo tempo, munido de uma força perdoadora de si e dos outros, de modo que não julgue, não compare, não promova competições, não defina o que é superior ou inferior, mas mergulhe inteiramente nas infinitas possibilidades que estão à disposição, com satisfação e alegria até na adversidade, pois o modo de ver muda totalmente a natureza daquilo que se observa; de obstáculos para oportunidades de superação.

 

Essa gratidão e atitude positiva é criadora, enquanto o estado de desânimo e irreflexão só sabe lamentar e a inventar desculpas para seu fracasso, limitando a visão das possibilidades e tornando impossível o auto conhecimento.

 

                                                                                                                        (Samuel Torres)

COMPARTILHE:
Entre para a nossa lista VIP.