Loucura e a arte como cura

Por Aniela Darienzo 29 de setembro de 2017

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nise da silveira
Loucura e a arte como cura
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O que é melhor para a saúde mental de uma pessoa, eletrochoques, lobotomia ou a prática de uma atividade artística? A pergunta pode parecer digna de uma gargalhada ou talvez possa ser considerada chocante por alguns, mas infelizmente há não tanto tempo atrás, práticas que hoje são consideradas como meios de tortura já foram empregados como maneiras supostamente eficientes para promover a cura.

Houve um período em que realizar oficinas de arte como modo de retorno ao equilíbrio mental e emocional eram vistos com incredulidade e formas brutais de tratamento tinham lugar de destaque.

Neste artigo apresentarei o trabalho de Nise da Silveira, uma personalidade de grande importância no Brasil e no exterior por sua contribuição na mudança dos modos de pensar o auxílio terapêutico, trazendo a possibilidade de cura e ressignificação através do desenho, pintura e modelagem.

Nise ressaltou a importância de usar valores como respeito, afeto, liberdade e criatividade no tratamento em hospitais psiquiátricos.

Nise da Silveira foi uma médica psiquiatra alagoana nascida em 1905, nesse período era comum usar meios agressivos como eletrochoques, drogas, lobotomia e injeções de insulina no tratamento psiquiátrico. Os pacientes poderiam ser amarrados, forçados a ingerir substâncias indutoras de vômito e toda sorte de situações que só aumentavam os sintomas, desestabilizando a mente e o emocional dos que se submetiam a esse modo de tratamento.

Nise desde a época de estudante se recusava a aceitar os tratamentos brutais que eram usados e buscou através de pesquisas outras formas de auxílio que oferecessem um caminho de estabilidade e afetividade. A não aceitação do que era considerado o melhor caminho e a sugestão de uma terapia ocupacional com a criação de oficinas e ateliês de pintura a fizeram enfrentar muita resistência e descrédito por parte dos colegas de sua área.

Nise, porém, permaneceu forte no caminho que acreditava; os embates não a fizeram mudar sua trajetória. Lutou, persistiu e conquistou respeito e admiração por seu trabalho.

Foi uma das primeiras mulheres a se formar em medicina durante década de 30, lidou com o preconceito por atuar em um ambiente predominantemente masculino, a única mulher em meio a mais de 150 colegas homens durante o curso de medicina.

Fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro, para reunir as obras plásticas que os pacientes realizavam e formou um centro de estudos e pesquisas. As obras de seus pacientes começaram a chamar atenção de artistas e críticos de arte por sua força emocional, surgindo também a polêmica que atingiu os jornais da época discutindo se os trabalhos realizados teriam valor artístico ou seriam uma expressão do imaginário.

Nise, no entanto evitava que as obras fossem julgadas esteticamente porque a finalidade do processo artístico era exprimir a ruptura que abalasse um indivíduo, assim como expressar a força de cura que existe em cada um, e não o resultado final em termos estéticos.

As obras artísticas são imagens que surgem nos porões da mente, impregnadas pelo mundo dos sonhos, pelo devaneio, pelo extraordinário, enriquecidas de simbologias e muitas vezes pela ideia do sagrado.

Nise encontrou no pensamento junguiano um meio de entender a produção artística de seus pacientes. Afirmava que a arte representava um auto retrato da situação interna e seria um modo de esvaziar imagens aterrorizantes que atormentassem um indivíduo.

Terapia ocupacional

Quando se fala em terapia ocupacional ainda se possui a visão de um passatempo, uma distração sem grande significado, reduzindo o valor das atividades artísticas como agente terapêutico. A arte no entanto, permite uma forma de comunicação não verbal que abre possibilidades de expressão aos pacientes, uma forma de compensação diante do caos que existe na consciência.

Nessa época em que se discutia o valor da arte produzida pelos pacientes psiquiátricos surgiu o artista Jean Dubuffet que sozinho criou um movimento artístico denominado Arte Bruta em que ambicionava a criação de um trabalho artístico autêntico, livre das amarras culturais, semelhante às expressões realizadas por crianças e doentes mentais.

O termo Arte Bruta foi criado pelo pintor francês Jean Dubuffet em 1947 para caracterizar um tipo de trabalho que fosse produzido fora do sistema tradicional e profissional. Esse tipo de arte não seguia regras artísticas, deveria ser uma expressão interior, visceral, trazendo o que fosse verdadeiro e íntimo. Expressava também a solidão, a marginalização, a violência.

A arte é um caminho que proporciona auxílio e promove o retorno ao equilíbrio, seja para as pessoas consideradas sãs; seja para as que passaram por algum processo traumático e se recuperam; ou para aqueles que trazem alguma questão complexa a ser trabalhada durante toda a vida.

A arte traz estabilidade, é um meio de lidar com os sentimentos em um ambiente seguro, onde palavras não são necessárias. Contribui para uma vida mais rica de sentido, é transformação e superação. A arte contribui para uma vida plena.

BIBLIOGRAFIA

JANSON, H. W. História Geral da Arte – O mundo Moderno. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2007

JUNIOR, Eurípedes Gomes da Cruz – O MUSEU DE IMAGENS DO INCONSCIENTE: das coleções da loucura aos desafios contemporâneos. Rio de Janeiro: UNIRIO/MAST, 2009

BARAÚNA, Mara L. 110 Anos da doutora Nise da Silveira – uma psiquiatra rebelde. 2015.
http://jornalggn.com.br/noticia/110-anos-da-doutora-nise-da-silveira-uma-psiquiatra-rebelde

ARRAES, Lucas. Arte Bruta e Arte informal. Modalidades de Arte Contemporânea. 2013.
http://artecontemporanea0.blogspot.com.br/2013/09/arte-bruta-e-arte-informal.html

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