Desenvolvendo a Percepção

Por Maira Poli 31 de agosto de 2017

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Desenvolvendo a Percepção
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Percepção é a capacidade de perceber de modo consciente o mundo através dos sentidos, balizados pela racionalidade e conhecimentos, conferindo significado ao mesmo. À medida que se adquire novos conhecimentos, a percepção irá se aprimorar. Não é a visão que se altera, mas o modo como se vê as coisas.

Na psicologia, o estudo da percepção está relacionado ao comportamento das pessoas conforme interpretações que fazem da realidade, de acordo com as vivências e necessidades de cada um, com um especial interesse sobre suas próprias experiências.

Na arte não é diferente, pois além da técnica, que pode ser aprendida por meio de informações e instruções, há de se desenvolver habilidades no campo da percepção e essa é uma habilidade adquirida durante a prática.

De acordo com o livro “Desenhando com o lado direito do cérebro”, de Betty Edwards, ações simples do cotidiano, se trabalhadas em conjunto, possibilitam treinar também outras habilidades mais específicas. Como tudo que se aprende, é difícil no começo e há obstáculos, contudo, com a prática, torna-se automático.

O mesmo ocorre no desenvolvimento da Percepção. Conforme for treinando etapas e passando por experiências, cada passo irá lhe levar à excelência. Com isso, podemos desmistificar o que dizem sobre ter o “dom” para desenhar e mostrar que, além da aptidão – disposição inata ou adquirida – , há como trabalhar para mudar a forma de ver o desenho e progredir em tal atividade. É mais do que um fator interno que o aproxima da arte, são também fatores externos que irão habilitar e estimular os sentidos. Isto é a percepção.

Desenhar não é apenas saber as técnicas, mas o grande lance é saber ver a imagem, tanto a referência quanto o trabalho produzido. Quando aprende-se a ver, não importa se irá desenhar retratos, naturezas ou objetos. Aprendendo a ver, saberá executar as ações necessárias para alcançar o êxito em seus trabalhos. E, para isso, é preciso aprimorar a percepção, o modo de ver aquilo à sua frente, trabalhando através da prática, refinamento e técnica e, por fim, entendendo o propósito do que faz.

Para isso, Betty Edwards relata que existem 5 componentes básicos para desenvolver a percepção. É um modo de estimular a capacidade de perceber, sendo que um componente leva ao desenvolvimento do outro e por fim, o Todo, o último componente, surgirá pela experiência e englobamento dos anteriores.

1. Percepção das Bordas (linhas do desenho, contornos)
2. Percepção dos Espaços (espaços negativos)
3. Percepção dos Relacionamentos (proporção e perspectiva)
4. Percepção de Luzes e Sombras (sombreamento)
5. Percepção do Todo (essência)

Um dos atos mais comuns e difíceis de retirar do iniciante é a forma de ver o desenho como símbolos, linhas, formatos. É algo desenvolvido quando criança e o cérebro continua a estimular essas informações guardadas na memória, sendo essas, rápidas e simplórias. Nesse momento olha-se o todo e se absorve todas as informações de uma só vez, não dando importância aos pormenores.

Abaixo temos um exemplo de um desenho feito com 3 meses de experiência, feito por linhas duras e proporções errôneas. Uma segunda tentativa realizada após 1 ano e, no último exemplo, um trabalho realizado com 4 anos e meio de estudo e buscando o aprimoramento de detalhes, deixando de trabalhar linhas e formas e passando a perceber volumes e texturas. Também é possível perceber a construção da imagem por partes, não pelo todo.

No desenvolvimento da percepção trabalha-se também com os termos “espaço negativo” e “espaço positivo”. É como trabalhar o formato de determinado objeto, cena, retrato, entre outros. Porém, não se olha o conteúdo, mas o que está ao seu redor como forma e espaço. Olhando esses espaços negativos podemos facilitar a percepção de detalhes que não conseguimos entender no início. Um simples exemplo é quando desenha-se cabelos e não se entende como fazer e como começar. Preenchendo os espaços negativos, os espaços escuros e que moldam as mechas, terá uma melhor compreensão dos espaços e de cada forma, podendo depois aplicar as informações de volume e textura no espaço positivo. É como moldar uma região para depois aplicar o conteúdo.

Proporções e perspectivas no desenho é uma questão de comparação. Quando preenchida uma determinada área do desenho realista, é preciso saber ver se determinados tons estão em suas devidas intensidades e locais apropriados para dar o correto acabamento de volume e profundidade. Para isso, estipula-se visualmente os limites, como linhas imaginárias, para auxiliar a perceber os ângulos e os espaços. Muitos desenhistas sentem dificuldade em identificar os tons corretos, enxergando tudo em preto e branco, sem as nuances de cinza.

Na trajetória de seus oito anos desenhando retratos, com breves pausas, o desenhista
Samuel Torres foi aprimorando a sua técnica e principalmente a sua percepção, pois, como percebe-se, antes tínhamos desenhos com erros de proporção no traço e no sombreamento e, apesar do volume encontrado no sombreamento, as nuances não tinham intensidade suficiente e nem se distinguiam muito entre si. Hoje, apresenta um trabalho suave e equilibrado como na última imagem.

Até o momento, de acordo as etapas citadas, é como estar desenhando no vídeo abaixo: construindo a imagem, olhando espaços negativos e positivos, trabalhando proporções e perspectivas sem dar nomes às partes.
A técnica na prática é diferente, mas é uma maneira de ilustrar o que está sendo dito em relação a percepção.

O sombreamento no realismo pode-se entender como a arte final do trabalho e para isso é preciso aprender a ver luzes e sombras como verdadeiramente se mostram. Para fazer o sombreamento é preciso entender sobre graduações e degradês, que na técnica com lápis grafite, de maneira simples, são: movimentos lentos e curtos que vão se sobrepondo, alterando as intensidade de áreas escuras à áreas claras de forma homogênea e sem divisões. Alguns apresentam dificuldades em não deixar as passagens em evidência no primeiro instante, mas o treino mostra o caminho aos acabamentos refinados.

O mais difícil nessa fase não é fazer o sombreamento em si, a técnica manual, mas sim desenvolver a percepção de tonalidades e espaços é a etapa que muitos sentem dificuldade e outros ainda não percebem suas falhas.
É nesse momento que podem surgir as dúvidas, como: estou trabalhando com as nuances corretas? Será que consegui atingir a profundidade e volume necessários?
Essas perguntas e dúvidas já são parte importante do processo, pois, ao se indagar dos erros, há a tendência em procurar respostas.

Ao ler todo o conteúdo pode parecer algo extraordinário, com um caminho longo e trabalhoso. E é, pois a maneira mais eficaz é a prática e por consequência o desenvolvimento da percepção, como dito até o momento, e isso demanda tempo e disposição como qualquer outro trabalho que visa a excelência.

A habilidade motora desenvolve-se com uma certa rapidez e é uma atividade prazerosa. Mas a percepção sobre o que está fazendo até chegar a última etapa, a essência do desenho e toda a sua harmonia, exige uma trajetória de estudos e dedicação. Uns conseguem com mais facilidade, outros demandam mais estudos, mas é possível. Desde que aprenda a ver!

O importante é sair do lugar e dar o primeiro passo, comprometendo-se consigo mesmo. Seja sozinho ou com auxílio de profissionais, buscando sempre a excelência e aprendendo a enxergar de uma maneira própria e peculiar e que irá transformar até mesmo a sua maneira de perceber o mundo.

Quer conhecer essa experiência na prática?

No Curso para Iniciantes há vídeo aulas onde trabalhamos exclusivamente com essa tema “Desenvolvendo a Percepção”, onde o aluno aprende a fazer desenhos como a imagem apresentada no início deste artigo.

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